ENTRE O EVANGELHO E O ÓDIO POLÍTICO: COMO PODE ALGUÉM QUE SE DIZ CRISTÃO ODIAR QUEM DEFENDE OS POBRES?

Professor Joelson Chaves acadêmico de jornalismo
Uma reflexão sobre Jesus Cristo, Lula, a justiça
social e a responsabilidade espiritual das lideranças religiosas no Brasil.
Existe uma contradição que merece ser examinada com
profundidade pela sociedade brasileira, especialmente pelos cristãos: como
pessoas que professam a fé em Jesus Cristo, que pregam o amor, a misericórdia,
a solidariedade e o cuidado com os necessitados, podem alimentar tanto ódio contra
um presidente que tem sua trajetória política associada à defesa dos
trabalhadores e à implantação de políticas de combate à fome e à pobreza?
Não se trata de exigir que todo cristão apoie Luiz
Inácio Lula da Silva. A fé cristã não pertence a partidos políticos, e nenhum
governante deve ser colocado acima de críticas. A questão é outra: como
conciliar os ensinamentos de Cristo com discursos religiosos que estimulam a
hostilidade, a intolerância e a demonização de adversários políticos? Essa
pergunta precisa ser feita, sobretudo, àqueles que ocupam os púlpitos e exercem
influência sobre a consciência de milhões de brasileiros.
JESUS CRISTO E OS QUE TÊM FOME
Quando lemos os Evangelhos, encontramos um Jesus
profundamente comprometido com os pobres, os doentes, os excluídos e todos
aqueles que eram desprezados pela sociedade de sua época. Em Mateus 25:35-40,
Jesus apresenta uma das mais belas lições de humanidade do cristianismo:
"Porque
tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber."
A passagem ensina que a maneira como tratamos os
necessitados revela muito sobre nossa relação com Deus. Em Mateus 5:7,
encontramos outra afirmação: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque
eles alcançarão misericórdia." Em Lucas 4:18, Jesus anuncia sua missão de
levar boas-novas aos pobres e libertação aos oprimidos. São ensinamentos que
não deveriam ser utilizados como instrumentos de disputa partidária, mas como
compromissos permanentes de humanidade.
Por isso, é legítimo perguntar: quando um governo
cria ou amplia mecanismos de transferência de renda, combate à fome e acesso à
educação, não está, ao menos no objetivo dessas políticas, enfrentando
problemas que também deveriam mobilizar a consciência cristã? É claro que programas sociais precisam ser
fiscalizados, aperfeiçoados e avaliados. Mas combater a fome não deveria ser
motivo de vergonha, muito menos de ódio.
A POBREZA NÃO É PECADO, E RECEBER AJUDA NÃO É
VERGONHA
Há algo profundamente injusto na maneira como parte
da sociedade trata os beneficiários de programas sociais. Muitas vezes, quem
recebe um auxílio governamental é chamado de preguiçoso, acomodado ou
dependente. Mas será que essas pessoas conhecem a realidade de uma mãe que
precisa alimentar três filhos com uma renda insuficiente? Conhecem a situação
de um trabalhador informal que passa dias sem conseguir serviço?
conhecem a angústia de uma família que precisa
escolher entre comprar alimentos, pagar a conta de energia ou adquirir
medicamentos? Um benefício social não é uma fortuna não transforma uma família
pobre não proporciona luxo. é uma proteção mínima diante de uma realidade
econômica que ainda impõe enormes dificuldades a milhões de brasileiros. o
benefício não substitui o emprego, o salário digno ou a oportunidade de
crescimento. ele ajuda a impedir que a fome destrua ainda mais a vida de quem
já enfrenta dificuldades. e aqui cabe outra pergunta aos cristãos: se jesus
ensinou a repartir o pão, por que alguém deveria sentir vergonha de receber uma
ajuda que lhe permite colocar alimento na mesa?
O NORDESTINO QUE CHEGOU À PRESIDÊNCIA
Luiz Inácio Lula da Silva carrega uma história que
faz parte da própria história social brasileira. Nasceu em Garanhuns,
Pernambuco, viveu as dificuldades de uma família pobre e migrou ainda criança
para São Paulo. Conheceu o trabalho, a luta sindical e a organização dos
trabalhadores. Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, foi
deputado federal constituinte e chegou à Presidência da República pelo voto
popular. Sua trajetória não o torna imune a erros, críticas ou cobranças. Mas
representa uma transformação importante na história política nacional: um
trabalhador de origem humilde alcançou o mais alto cargo da República. Seus
governos ficaram associados a programas de combate à fome, transferência de
renda, expansão do acesso à universidade e valorização do salário mínimo.
É possível discutir os resultados, os custos, as
limitações e as contradições dessas políticas. Isso faz parte da democracia. O
que não parece razoável é transformar o combate à pobreza em motivo de desprezo
ou tratar a origem nordestina e humilde de um presidente como algo que deva ser
motivo de humilhação. O Nordeste não é uma região inferior. A pobreza não
diminui a dignidade de ninguém. E a origem social não determina o valor de um
ser humano.
QUANDO O PÚLPITO SE TRANSFORMA EM PALANQUE DE ÓDIO
A
responsabilidade das lideranças religiosas é enorme.
Um pastor não é apenas alguém que fala diante de
uma congregação. Para muitos fiéis, ele representa uma referência espiritual,
moral e até intelectual. Suas palavras podem orientar comportamentos, despertar
solidariedade, promover reconciliação ou, infelizmente, estimular preconceitos
e hostilidades. É perfeitamente legítimo que um pastor tenha opiniões políticas
e manifeste suas convicções. O problema começa quando a autoridade espiritual é
utilizada para apresentar adversários políticos como inimigos de Deus, como se
discordar de determinado governante fosse uma prova de falta de fé.
Nenhum presidente é Deus. Nenhum partido é uma
igreja. Nenhum líder político deve ocupar o lugar da consciência individual. O
púlpito deveria ser espaço de reflexão espiritual, compromisso com a verdade,
defesa da dignidade humana e acolhimento. Quando a pregação se transforma em
campanha permanente de demonização política, surge uma pergunta incômoda:
estamos diante de uma mensagem verdadeiramente cristã ou de uma utilização
política da religião? Jesus não ensinou seus discípulos a odiar pessoas por
suas diferenças. Ensinou a amar até os inimigos. Em Mateus 5:44, encontramos
uma orientação que deveria fazer qualquer cristão refletir: amar os inimigos e
orar pelos que perseguem. Será que esse ensinamento ainda ocupa o lugar que
merece em nossas igrejas?
A RELIGIÃO NÃO PODE SER
INSTRUMENTO DE MANIPULAÇÃO ELEITORAL
O Brasil é um Estado laico. Isso não significa ser
contrário à religião, mas garantir que todas as pessoas tenham liberdade de
crença e que o poder público não esteja subordinado a uma determinada fé. As
igrejas têm direito de participar do debate público. Seus membros podem apoiar
candidatos, criticar governos e defender propostas. Entretanto, a fé não
deveria ser utilizada para manipular o eleitor por meio do medo, de ameaças
espirituais ou de falsas acusações. Dizer que votar em determinado candidato significa
votar contra Deus é uma forma preocupante de instrumentalização religiosa da
política. A consciência cristã precisa ser livre para avaliar os candidatos
pelos seus atos, propostas, compromissos e respeito à dignidade humana. Não é o
nome de um partido que determina a qualidade moral de uma pessoa. É preciso
avaliar comportamentos, atitudes e responsabilidades.
A PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO E A POLÍTICA DA
INDIFERENÇA
Em Lucas
10:25-37, Jesus conta a parábola do bom samaritano.
Um homem é assaltado, espancado e deixado à beira
do caminho. Pessoas religiosas passam por ele, mas não o socorrem. Um
samaritano, pertencente a um grupo social desprezado pelos interlocutores da
época, aproxima-se, cuida de suas feridas e providencia ajuda. A mensagem é extraordinária.
Aquele que demonstrou amor ao próximo não foi identificado pela posição
religiosa, pelo prestígio social ou pela proximidade ideológica, mas pela
atitude de compaixão. Essa parábola deveria ser lembrada em qualquer discussão
sobre políticas sociais. A fome não pergunta em quem a pessoa votou. A doença
não pergunta a qual partido ela pertence. A criança que precisa de alimento não
deve ser discriminada pela orientação política dos pais. O sofrimento humano
não pode ser submetido a uma seleção ideológica. Talvez seja justamente essa a
grande lição que falta a uma parte da nossa sociedade: antes de enxergar o
adversário político, precisamos enxergar o ser humano.
O VERDADEIRO TESTE DA FÉ
O cristão pode ser de direita, de esquerda ou de
centro. Pode votar em Lula, em Bolsonaro ou em qualquer outro candidato. Mas
não deveria abrir mão da misericórdia, da honestidade, da solidariedade e do
respeito à dignidade humana para defender qualquer projeto político. Nenhum
político merece adoração. Nenhum adversário merece desumanização.
UMA PALAVRA AOS PASTORES E AOS FIÉIS
Aos pastores que têm grande influência sobre seus
rebanhos, fica uma reflexão: utilizem essa influência para combater a fome, a
violência, o preconceito, a intolerância e a desigualdade. Ensinem seus fiéis a
pensar, a questionar, a verificar informações e a respeitar quem discorda. Não
transformem o Evangelho em instrumento de ódio eleitoral. Aos fiéis, fica outra
reflexão: leiam os Evangelhos, examinem as Escrituras e não entreguem a terceiros
o direito de decidir sua consciência.
A fé é uma relação espiritual que não deveria ser
sequestrada por interesses eleitorais.
E a todos os brasileiros, independentemente de suas
convicções políticas, fica uma pergunta:
Se Jesus Cristo estivesse hoje entre nós, preocupado com os famintos,
os desempregados, os doentes e os marginalizados, estaria mais interessado em
ensinar o povo a odiar um presidente ou em garantir que ninguém passasse fome?
Talvez a resposta esteja nos próprios Evangelhos. O
amor ao próximo não pode ser seletivo. A solidariedade não pode ter partido. A
compaixão não pode depender do voto de ninguém. E uma sociedade que se diz
cristã precisa demonstrar seus valores não apenas nas palavras que pronuncia,
mas principalmente na maneira como trata os mais vulneráveis.
Porque, no final, a grandeza de uma fé não está na intensidade com que alguém condena seus adversários, mas na capacidade de amar, acolher e ajudar aqueles que mais precisam.
ONDE ESTÁ CRISTO NO DISCURSO DE ÓDIO?
Professor Joelson Chaves acadêmico de jornalismo
Porto Velho, Rondônia # 06 de novembro de 2026.
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