POWER POINT DA GLOBO SOBRE CASO MASTER GERA INDIGNAÇÃO E OBRIGA CANAL A
SE DESCULPAR
Programa da
GloboNews exibiu uma apresentação colocando Lula e o PT com supostas relações
com o banco e Vorcaro. Repercussão negativa gerou retratação nesta segunda, 23
Publicado 23/03/2026 15:46 | Editado 24/03/2026 18:20
Estúdio na sexta, ao apresentar o power point. Foto: reprodução
No ano em que o
Brasil, mais uma vez, passará por uma disputa presidencial determinante para
futuro do país e da democracia, a Globo resolveu, novamente, usar Lula e o PT
como alvos de ilações maliciosas — dessa vez envolvendo o caso Master.
A mais recente
investida, via GloboNews, foi ressuscitar o famigerado esquema de Power Point —
que ficou famoso pelas mão de Deltan Dallagnol na Lava Jato —, para demonstrar
como seria a rede de influência do banqueiro Daniel Vorcaro.
Na sexta-feira
(20), durante o programa Estúdio i, o canal colocou Lula e o PT com destaque no
centro da trama, mesmo sabendo não haver nas investigações elementos que liguem
o presidente e o partido a relações promíscuas com o banqueiro e o Master e
mesmo tendo conhecimento de que foram nomes da direita e da extrema direita que
se refastelaram no esquema.
Além disso, não
mostrou figuras proeminentes da extrema direita, como o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos)
que, juntos, receberam R$ 5 milhões em doações de Fabiano Zettel, cunhado e
braço direito de Vorcaro, na campanha de 2022.
Nem mesmo
governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha — que tanto se empenhou para que
o Banco Regional de Brasília (BRB) comprasse o Master e amargasse suas dívidas
— apareceria no material.
A apresentação
também não trazia o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, cuja
gestão autorizou o funcionamento do banco e fez vista grossa para as fraudes do
Master. Somente sob a presidência de Gabriel Galípolo o banco foi finalmente
liquidado e a Polícia Federal, sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, passou a investigar o caso.
Lula aparece na
apresentação da Globo News em posição superior à de nomes como os do senador
Ciro Nogueira (PP-PI), de Antônio Rueda, presidente do União Brasil; do
deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre
(União Brasil-AP) e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entre outros
igualmente encalacrados com Vorcaro, segundo as investigações.
Apenas para citar
os mais notórios: Ciro Nogueira era tratado como “amigo de vida” do banqueiro e
tentou emplacar, no Senado, a “Emenda Master”, proposta comemorada por Vorcaro
em mensagens, que visava aumentar o valor da garantia disponibilizado pelo
Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para bancos médios, de R$ 250 mil para R$ 1
milhão, o que beneficiaria diretamente o Master.
No caso de Rueda,
ele e sua irmã, Maria Emília, advogaram pessoalmente para o banco de Vorcaro —
assim como Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Conforme as investigações, o dirigente partidário teria, ainda, tentado
intermediar a venda do Master para o BRB.
Já no que diz
respeito a Lula e ao PT, conforme apurado, o presidente recebeu Vorcaro uma
vez, para uma reunião em dezembro de 2024, na qual Lula teria afirmado que
questões relativas aos bancos seriam tratadas e investigadas tecnicamente.
Ao colocar o
presidente e o PT em posição de destaque, a apresentação claramente tenta
indicar uma inverídica proeminência de ambos no esquema.
No mesmo dia, sem
citar diretamente a Globo, o presidente Lula declarou: “Vira e mexe eles estão
tentando empurrar para as costas do PT e do governo esse banco Master. Esse
banco Master é o ‘ovo da serpente’ do Bolsonaro e do Campos Neto, ex-presidente
do Banco Central. E nós não deixaremos pedra sobre pedra, para a gente apurar
tudo o que fizeram, dando um rombo de R$ 50 bilhões neste país. Se a gente não
tomar cuidado, eles vão tentar dizer que somos nós”.
O presidente
prosseguiu dizendo que “esse banco nasceu em 2019. No começo do ano, o então
ex-presidente do BC, o Ilan [Goldfajn] negou o reconhecimento do banco Master.
Quem reconheceu, em setembro de 2019, foi o Roberto Campos Neto e todas as
falcatruas foram feitas por ele”.
Repercussão
A apresentação teve
forte repercussão no meio político e até mesmo entre jornalistas que já foram
da própria Rede Globo.
Na avaliação da
líder do PCdoB na Câmara, Jandira Feghali (RJ), “essa tentativa sórdida de
empurrar o escândalo para o colo da esquerda não resiste aos fatos. O caso tem
digitais claras, ligações conhecidas e raízes em setores que hoje tentam
reescrever a história para escapar da responsabilidade. É a velha tática da
extrema direita: criar cortina de fumaça, inverter culpados e apostar na
desinformação”.
O deputado federal
Rogério Correia (PT-MG) também reagiu: “O presidente Lula não tem nada a ver
com o Vorcaro. Ele se reuniu com ele uma vez e o presidente pediu ao (Gabriel)
Galípolo, atual presidente do Banco Central, que fizesse uma análise técnica.
Resultado: o Galípolo mandou fechar o Banco Master, liquidou, porque estava
cheio de roubalheira que veio do governo Bolsonaro”.
Além de classificar
o ocorrido como “muito grave”, o deputado e ex-ministro Paulo Pimenta (PT-RS)
apontou: “Não aparece o Bolsonaro, não aparece o Campos Neto, ex-presidente do
Banco Central e figura-chave no Caso Master, não aparece o Tarcísio. O cunhado
do Vorcaro, Fabiano Zettel, era o operador financeiro do esquema do
Bolso-Master. As duas campanhas que mais receberam dinheiro dele na última
eleição foram as campanhas do Bolsonaro e do Tarcísio”, completou Paulo
Pimenta.
A jornalista Neide
Duarte, que durante anos atuou na Rede Globo, classificou a sexta-feira como
“Dia da Vergonha” e destacou, via redes sociais: “Acredito que a editoria que
mandou fazer essa cartolina esqueceu vários nomes principais dessa história.
Por exemplo, Roberto Campos Neto, o ex-presidente do Banco Central, foi na
época dele que tudo começou; Tarcísio de Freitas, que recebeu 2 milhões de
reais de Vorcaro; Jair Bolsonaro, que recebeu 3 milhões de reais de Vorcaro;
Ibaneis Rocha, governador de Brasília, que quis comprar o Banco Master através
do Banco de Brasília para salvar Vorcaro; Claudio Castro, governador do Rio,
que investiu bilhões do fundo de previdência dos funcionários públicos do Rio
em papéis podres do Master”.
Nos comentários à
mensagem de Neide, o também ex-repórter da Globo por 34 anos, Ari Peixoto,
disse que a rede foi mudando ao longo dos anos e que “o que era para ser uma
emissora de televisão se tonou uma arma política, quase um partido autônomo,
dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos de
esquerda”. Ele concluiu dizendo: “Preparem-se. Cenas como esta, aliadas à IA,
serão muito comuns até outubro. O power point da lava a jato vai parecer
desenho de criança do jardim de infância”.
Sadi pede desculpas
Foto:
reprodução
O impacto da
repercussão negativa fez com que a jornalista Andreia Sadi, âncora do programa
Estúdio i, pedisse desculpas na edição desta segunda-feira (23). Ela se referiu
à apresentação como “incompleta” e acrescentou que a mesma “também não deixou
claro o critério que foi usado para a seleção das informações”.
Disse, ainda, que
“esse conteúdo acabou misturando contatos institucionais com nomes que Vorcaro
menciona como tendo relação contratual ou pessoal, além de outros nomes sob
análise da PF ou que, à luz das informações apuradas até aqui, podem ser
classificados como não-republicanos”.
Por fim, declarou: “Diante de um material incompleto e em desacordo com os nossos princípios editoriais a gente pede desculpas”.
Joelson Chaves de Queiroz
Acadêmico de jornalismo
A esquerda bem informada
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